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15 março 2009

"- [...] Claro, falar de um modo tímido, respeitoso e apaixonado; dizer que estou morrendo sozinho, que ela não me rechace, que não há maneira de conhecer qualquer mulher que seja, sugerir-lhe que é até mesmo um homem tão desgraçado como eu. Enfim, tudo o que peço é tão-somente que me diga uma ou duas palavras fraternas, com simpatia, sem me repelir logo no primeiro passo, que acredite em minhas palavras, que ouça o que vou dizer, que ria de mim se quiser, mas que me dê esperança, que me diga duas palavras, só duas palavras, mesmo que nunca mais nos encontremos!... Mas a senhorita está rindo... Aliás, não é para menos...

- Não se zangue, estou rindo porque o senhor é seu próprio inimigo."

Fiódor Dostoiévski, em Noites Brancas, logo após Sonhador ter encontrado nos olhos de Nástienka a infelicidade disfarçada de amor.

31 janeiro 2009

"Mas lembrar-me daquela ofensa, Nástienka! Erguer uma nuvem escura sobre a sua felicidade clara e serena; levar tristeza ao seu coração, acusá-lo e fazê-lo amargar um remorso secreto, obrigando-o a bater tristemente num momento de júbilo; pisar uma só das flores ternas que adornarão suas madeixas negras quando for com ele ao altar... Oh, nunca, nunca! Que seja claro o seu céu, que seja luminoso e sereno o seu lindo sorriso; abençoada seja você pelo momento de júbilo e felicidade que concedeu a um coração solitário e agradecido!

Meu Deus! Um momento inteiro de júbilo! Não será isto o bastante para uma vida inteira?..."

Fiódor Dostoiévski, em Noites Brancas, logo após Sonhador ser repelido por Nástienka.

02 janeiro 2009

"Dizem que o sol anima o universo. O sol vai nascer e - olhem para ele, por acaso não é um cadáver? Tudo está morto, e há cadáveres por toda a parte. Há somente os homens, e em volta deles o silêncio - essa é a terra! "Homens, amai-vos uns aos outros" - quem disse isso? de quem é esse mandamento? O pêndulo bate insensível, repugnante. Duas horas da madrugada. As suas botinhas estão junto da cama, como que esperando por ela... Não, é sério, quando amanhã a levarem embora, o que é que vai ser de mim?"

Fiódor Dostoiévski, em A Dócil.

01 janeiro 2009

"É que eu sou mestre em falar calado, passei toda a minha vida falando calado e vivi comigo mesmo tragédias inteiras calado. Ah, pois eu também fui infeliz! Fui abandonado por todos, abandonado e esquecido, e ninguém, ninguém sabe disso!"

Fiódor Dostoiévski, em A Dócil.